Álbum premiado, que evidencia uma expressividade e uma sensibilidade raras, este livro do alemão Wolf Erlbruch, o terceiro publicado pela editora Bruaá, propõe, com uma simplicidade invulgar, uma reflexão acerca de uma questão complexa, filosófica, numa palavra, ”grande”: por que motivo(s) estamos no mundo? É esta dúvida – materializada no próprio título – que desencadeia o conjunto de respostas que compõem esta obra. À grande qualidade visual das ilustrações, a ocuparem páginas duplas e compostas a partir de uma técnica mista, associa-se um texto verbal simultaneamente conciso e insólito, sério e humorístico, simples e questionador. Este é colocado na voz de uma criança “intrigada” (visualmente recriada logo na capa) e de um gato, um piloto, um pássaro ou o número três, uma pedra, a morte e um cego, por exemplo, figuras que, cada uma à sua maneira, procuram avançar com uma resposta plausível (pelo menos, relativamente à sua própria mundivivência). A singularidade da construção verbo-icónica, bem como a inclusão, no final, de uma folha pautada onde se pressupõe o registo de outras respostas à questão, à medida que se for crescendo, parecem comprovar a variedade de níveis de leitura que esta obra estimulante possibilita.
— Sara Reis da Silva | Casa da Leitura
Não admira que este livro tenha ganho o prémio da Feira de Bolonha para melhor livro na categoria Ficção. É uma daquelas obras aparentemente simples, cuja profundidade convida tanto crianças como adultos a reflectir sobre a grande questão: Porque é que estamos aqui?
— Children's literature
Por que estou aqui ?
Digo a mim própria várias vezes que se os bebés conseguissem falar, todos eles poriam a mesma questão ao vir a este mundo : « Por que estou aqui ? ». De uma forma mais ou menos consciente, com mais ou menos facilidade, todos nós já colocamos esta questão ao longo da nossa vida. Podemos formulá-la de várias formas. Podemos até ficar um pouco inquietos com a angústia que ela nos suscita ou até mesmo tentar evitá-la. Mas será que a conseguimos evitar ?
Nos livros ilustrados, certos autores inventam histórias de vida. Histórias que nos falam para além da realidade, das palavras e das imagens… São estes livros que queremos partilhar com os mais novos, os mais crescidos e os adultos… Queremos ler em conjunto estas obras literárias que nos tocam na nossa dimensão humana. (…)
Neste livro, a grande questão não é colocada. Somente respostas aparecem nas páginas. Respostas dadas pelo irmão, pelo gato, pelo piloto, a avó, o homem gordo, a irmã, a morte, o marinheiro… e tantos outros, já que a vida nos reserva todo o tipo de encontros.
E como diz Albert Jacquard, tudo está no encontro. «O "jogo" vem dos outros. Nasce, eclode quando o outro diz "tu". É a humanidade que cria o "eu"». (…)
Uma das funções da literatura é, sem dúvida, ajudar-nos a construir o nosso ponto de vista sobre o mundo. Os nosso livros preferidos são aqueles que nos oferecem novas questões, novas visões, novos pensamentos…
«A grande questão» é um grande livro.
— Dominique Rateau |