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Daniil Harms, ou melhor, Daniil Ivánovitch Iuvatchov nasce em S. Petersburgo, no ano de 1905. Estuda no liceu alemão “Peterschule”, onde aprende as bases do inglês e do alemão, e em 1924 entra para o Instituto Electrotécnico de Leninegrado (antiga S. Petersburgo), de onde acaba por ser expulso. Aos vinte anos, casa com Ester Aleksandrovna Rusakova e inicia o seu percurso literário, juntando-se ao círculo de Alexander Tufanov, um poeta e seguidor da poesia zaum, uma linguagem poética experimental predominantemente fonética. Também por esta altura começa a sua amizade e colaboração com o poeta Alexander Vvedensky, com o qual vem a fundar, em 1927, o efémero grupo vanguardista OBERIU (Associação de Arte Real). As suas actividades, que envolviam representações teatrais, leituras de poemas, performances, etc., rapidamente começam a ser criticadas e denunciadas na imprensa pelo seu carácter absurdo, desviante do realismo socialista e, portanto, contra-revolucionárias. Conseguem resistir até 1930. Entretanto, Harms e outros escritores ligados à OBERIU, agora em sérias dificuldades de sobrevivência, despertam a curiosidade de alguns editores de revistas infantis, como a "Yozh" (Ouriço) e "Chizh" (Tentilhão), entre outras, que atentos às suas experimentações e técnicas perfeitamente aplicáveis à construção literária infantil, os convidam a escrever para estas publicações. Será a salvação temporária de muitos destes escritores que, mais tarde, irão perecer às mãos do regime.
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“ A vida apenas me interessa nas suas mais absurdas manifestações. ” |
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Esta entrada no mundo infantil, embora forçada, irá revestir-se de alguma naturalidade para Harms, uma vez que aí poderá projectar a sua admiração pelo nonsense de Lewis Carroll e Edward Lear, assim como as técnicas já usadas pelos oberiuty, nomeadamente a zaum. No seu caso particular, e apesar da forte pressão ideológica, Harms não irá conseguir apartar os dois mundos, acabando por construir uma clara interdependência entre o que escreve para adultos e o que escreve para crianças, através do absurdo que brota da sistemática violação das convenções literárias. Evidentemente que haverá um preço a pagar por isto. Em 1931, Harms e outros escritores que vinham sendo acusados de “ausência de mensagem” nas suas histórias e poemas, são detidos e obrigados a assinar autos de interrogatório onde “confessam” o carácter anti-soviético dos seus textos e os seus intuitos em desviar as crianças dos objectivos socialistas. Serão condenados e deportados para a cidade de Kursk. Os que sobrevivem, voltarão um par de anos mais tarde a Leninegrado, sendo-lhes permitida a reintegração na literatura infantil, mas proibida toda e qualquer outra actividade literária pública. Harms divorcia-se em 1932 e casa-se novamente em 1934 com Marina Vladimirovna Malich. Nos anos seguintes, o ar torna-se ainda mais irrespirável debaixo da cúpula do totalitarismo estalinista. A sua vida decorre mergulhada num quotidiano marcado pelo medo e pela fome. Os seus textos apenas são partilhados com um pequeno grupo de amigos apelidados de chinari – nome pelo qual Harms e Vvedenski se auto-intitulavam antes de criarem a OBERIU – que se reuniam para discutir filosofia, matemática, música e literatura. Em toda a sua vida Harms apenas conseguirá publicar dois poemas.
Dois meses após a invasão nazi da União Soviética, a 22 de Junho de 1941, Harms é preso pela segunda vez. Viria a morrer de fome, um ano depois, na ala psiquiátrica da prisão. Tinha 37 anos. Por esta altura, Leninegrado encontrava-se já cercada pelo exército alemão. A sua mulher e o seu amigo Iákov Drúskin, regressam à casa onde viviam, quase destruída por uma bomba, e recuperam a mala onde Harms havia guardado os seus manuscritos, salvando assim uma obra que só vinte anos depois começaria a ser divulgada e publicada na URSS. Desde então o interesse em Harms não tem parado de crescer tanto na Rússia, onde a sua obra infantil é uma das mais conhecidas e celebradas, como em todo o Ocidente
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