Estou com sono. Estou com muito sono mas não vou dormir. Abro de novo o portátil. Uma luzinha azul treme, indicando falta de bateria. Agarro num bloco e num lápis. Estou com sono mas não vou dormir. Vou escrever. Vou escrever sobre um homem. É alto, muito magro, excessivamente magro. Assustadoramente magro. Está inclinado sobre uma mesa. A mesa está torta. Embrulhada num pano, uma fatia de pão escuro, duro. É de noite e está frio, um frio russo, mas a lareira está apagada, húmida. O homem escreve depressa, quase sem respirar. As folhas amarrotadas cobrem-se com a sua letra inclinada. Os cadernos são grosseiros, desiguais, as folhas desprendem-se e algumas caem no chão. No pequeno quarto desnudado, destaca-se um armário, gavetas meio abertas, atulhadas de folhas atadas com cordel. Folhas de papel também nas cadeiras esqueléticas, e sobre a cama desfeita, no canto. Do outro lado, ao pé das três janelas, uma cadeira de baloiço. O homem vira-se de repente para a porta, escutando os passos pesados, autoritários, apressados, subindo as escadas. O rosto, agora iluminado, está brilhante, pequenas gotas de suor nas têmporas arruivadas, os olhos claros inundados por uma vermelhidão líquida. No meio da testa, a marca profunda do franzir dos loucos entre as sobrancelhas salientes. Insolências sobrantes, ironias íntimas, provocações disfarçadas, esculpiram-lhe marcas de risos antigos nas faces encovadas. O homem levanta-se e, em movimentos rápidos, precisos, antecipatórios, baixa-se junto à cama e puxa uma mala esburacada, cujos fechos estalam sob a pressão dos dedos longos. O barulho dos passos é cada vez mais intenso.(…)

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Depois de André da Loba, a editora Bruaá volta a apostar na ilustração portuguesa e convidou Gonçalo Viana para trabalhar no livro infantil “Esqueci-me como se chama”, com textos do autor russo Daniil Harms, a editar este mês.
É a segunda vez que aquela editora convida um ilustrador português a trabalhar visualmente um texto para uma obra para a infância e juventude, depois de ter lançado em 2010 o livro “O Arenque Fumado”, com poema de Charles Cros.
Gonçalo Viana, mais conhecido pelo cartoon e ilustração na imprensa, editou anteriormente o livro para a infância “O mais esperto do reino”, com texto de Dulce Souza Gonçalves, onde já praticava um estilo visual com recurso a padrões cromáticos e figurativos de traço “retro” que reforça agora em “Esqueci-me como se chama.
Gonçalo Viana, que colabora com regularidade com a revista Visão e com o jornal New York Times, venceu em 2008 o Prémio Stuart, de Desenho de Imprensa.
Autor da corrente surrealista, Damiil Harms nasceu em São Petersburgo em 1905 e viveu apenas 36 anos, durante os quais foram publicados escassos textos, por conta da perseguição de que foi alvo pelo regime soviético.
Ainda assim conseguiu divulgar os textos que escreveu para crianças e chegou a integrar a associação de escritores de literatura para crianças.
Já foi só depois da sua morte que viram a luz do dia outras obras inéditas, que estavam guardadas numa mala recuperada pela mulher.
“Esqueci-me como se chama”, traduzido para português por Nina Guerra e Filipe Guerra, reúne dez pequenas histórias e poemas, como “O ouriço corajoso”, “No jardim zoológico” e “O circo Printinpram”, “sempre dominados por uma visão absurda, subversiva e carnavalesca do quotidiano”, escreveu a editora.
São “uma boa amostra da produção para a infância de Harms, onde, como poucos, consegue captar o dia a dia, as brincadeiras e comportamentos infantis, juntando-lhes fantasia e absurdo quanto baste”, sublinhou a Bruaá.
Do mesmo autor está publicado em Portugal o livro “A Velha e outras histórias”, de Daniil Harms, pela Assírio & Alvim.
“A Velha” será transposto esta semana para o palco, na Figueira da Foz, pelo ator Miguel Borges.

Hoje, podem encontrar no suplemento LIV, do jornal i, a pré-publicação de um conto do próximo livro.