Como é que pode um miúdo português ler uma história que está escrita em persa? Da mesma maneira que um miúdo persa lê uma história escrita em português. Vai ao final do livro e vê a tradução. É isso que acontece neste livro, que tem um toque de magia no final. Como o mais provável é os leitores não perceberem peva de persa, à medida que se lê a história parece que os caracteres esquisitos são uma simples tradução. Errado. As histórias são bastante diferentes e ao mesmo tempo bastante iguais. É por isso que há por aqui uns pós de perlim pim pim.
Ana Kotowicz

Desconhecida do comum dos leitores, a força da ilustração iraniana já não surpreende, pelo menos, quem vai regularmente à Feira do Livro Infantil de Bolonha. Mas a singularidade de O Jardim de Babai deve-se mais à sua riqueza interpretativa do que ao convite a um olhar exótico, patente na edição bilingue (português e persa) e na possibilidade de leitura em sentidos contrários. Tal como uma tecelagem que se faz e desfaz, pegando por um fio ou por outro, o que encontramos no âmago desta belíssimo livro é, acima de tudo, uma reflexão sobre a integridade do ser. No centro do jardim que é também um tapete – dois símbolos antiquíssimos da ordem e da proporção –, está sempre a mesma figura concêntrica de Babai (sinónimo infantil para “cordeirinho”), ela própria desenhada como um jardim e um tapete. Filha de mãe belga e pai iraniano, Mandana Sadat (Bruxelas, 1971) recorre à iconografia islâmica, onde se destaca a geometria simbólica do número quatro e os elementos sagrados da natureza rodeando o centro. “Depois de muito procurar, encontrei esta parcela de terra soalheira junto a uma nascente”, diz Babai. E assim começou a cultivar o seu jardim.
Carla Maia de Almeida publicado na edição 126 da revista LER e no blogue O Jardim Assombrado.

Há muito que a bruaá nos tem habituado a livros que se oferecem ao toque como peças de arte trabalhadas à mão. Desta vez, a proposta é a de um livro que permite a leitura em duas línguas tão diferentes quanto o sol e a lua: o Português e o Persa. Porém, aquilo que à partida é antevisto como uma história comum traduzida em duas línguas diferentes será, no final, muito mais do que isso. Continuar a ler