A tarefa da crítica depara-se, de quando em vez, com os seus próprios limites, no sentido em que o discurso que cria, e que deseja, se opera no interior de um saber levado até às consequências da sua própria limitação, pois só aí é que nascem as questões, mesmo que jamais sejam respondidas, em vez de uma aproximação segura, incontroversa, de apresentação informativa – deixando de ser crítica, portanto. Mas por vezes ela depara-se com um território qualquer que ultrapassa esses limites, e passa a estender-se uma outra área, de ignorância, de escolhos conceptuais, de não-compreensão, até mesmo de impossibilidade de aproximação, por menor que esta pudesse ser. [nota pessoal: já tinha este livro, numa sua versão espanhola e francesa, há dois anos, mas não me era possível escrever sobre ele; a sua tradução, mas também o cruzamento com uma investigadora, levou a este texto, assinado a dois.]

O livro negro das cores é um desses objectos cuja leitura lança a tarefa crítica directamente aos escolhos. São tamanhos os riscos que se tomam ao abordar um livro destes. Para mais, por não sermos (e não o desejarmos ser) os seus leitores ideais. Ler este livro é lê-lo com medo, desconhecimento e apenas uma tentativa votada ao insucesso. É à luz desse perigo que o texto que se segue deve ser lido.
Muitos artistas que trabalham o desenho, desde aqueles que se expressam através do desenho quotidiano dos diários gráficos aos que constituem inúmeras séries como Robert Longo, expressam muitas vezes a entrega dos cinco sentidos em toda a criação do desenho. Querem eles com isto dizer, para além de um certa poeticidade da língua, de uma retórica assaz constante, que o acto de criação apenas é possível com uma total concentração, e que tal concentração apenas é possível de atingir se real. Uma forma de entender essa entrega é a capacidade que os autores têm de, a cada vez que revisitam com o olhar o desenho feito, possam recuperar todo o ambiente e sensações do momento da sua criação, como se todo o corpo passasse a tornar-se parte intrínseca, através de ligações subtis, da marca deixada na superfície (a que nós, meros espectadores, apenas temos acesso).
Ao deparamo-nos com um livro para cegos, e mormente, um livro ilustrado para cegos, por mais paradoxal que isso nos pareça, essa imagem é destruída, e somos confrontados com uma realidade mais prosaica, por um lado – há mesmo a ausência de um dos sentidos –, e, por outro, mais mais verdadeira – exploram-se os sentidos de um modo mais holístico, usualmente preterido. No caso presente, trata-se de assumir a necessidade de ler pelo toque.
Esta dimensão do toque traz à tona uma complexa rede de sensações e percepções que baralha novamente a relação entre intimidade e distância do acto de leitura, de fruição de uma ilustração. Convenhamos, sem titubeações, que não leremos jamais este livro como os cegos (assim o esperamos, sem com isso desejar diminuir o valor humano dos cegos). Por não sabermos ler Braille, por não termos a sensibilidade e aprendizagem suficientes para diferenciar e interpretar e ler as inscrições em volume (quer a escrita quer as imagens), por não podermos compreender o jogo que o livro promete, implica, e cumpre. Temos sempre o atalho mais fácil: vemos.
Continuar a leitura no blogue de Pedro Moura: Ler BD





Menena Cottin explica que la razón del éxito es la creatividad tanto técnica como el mensaje. Primero, “el libro enfoca el difícil tema de un niño ciego. Pero no es presentado como un minusválido. Ni siquiera se habla de ceguera. En lugar de ver a Tomás como un discapacitado, su amigo piensa que tiene poderes especiales, porque el niño invidente huele, saborea, oye y toca los colores. Tomás tiene poderes porque puede percibir más cosas, tiene más sensibilidad. Ser discapacitado ya no es un handycap”.
Segundo, la obra tiene un objetivo muy definido. “La idea es que cualquiera se enfrente a la realidad de un ciego”. Y tercero, “es un libro objeto, que no sólo se lee y mira sino que se puede tocar. Plantea una técnica nueva.

Podría decir que haber colaborado con Mónica y Menena en la realización de El libro negro de los colores ha sido una de las experiencias más extraordinarias que he vivido jamás como ilustradora de libros para niños.
En un principio, yo realmente no entendía nada. Mónica, muy emocionada, me dio a leer el manuscrito que Menena le acababa de traer. Era hermoso, conmovedor, pero era para mí en ese momento imposible visualizar una ilustración para una frase como “el amarillo sabe a mostaza”. Por supuesto que lo primero que me viene a la cabeza es un tarro de mostaza, o una mancha amarilla, ¡que horror! Lo obvio ha sido siempre una especie de monstruo del que huyo despavorida. No quería desalentarla, pero no ubicaba un estilo, un lenguaje visual apropiado para semejante poesía. Creo recordar que le dije que sería incapaz de hacerlo, pues otros proyectos me atormentaban lo suficiente como para encima lidiar con tan gigante compromiso. Al final Mónica me convenció: “Este libro es totalmente negro, y las ilustraciones serán en relieve”. En ese momento comprendí todo. Al preguntarle a Menena, como es mi costumbre cuando tengo al autor a la mano, por qué, en qué estaba pensando cuando escribió ese texto, ella, con una humildad pasmosa, me dijo que siendo una persona netamente visual, había hecho el ejercicio de privarse de la vista por un momento para tratar de definir los colores verbalmente a través de todos los demás sentidos. Me pareció absolutamente brillante, y comencé a plantearme cómo asumiría entonces el reto de ilustrar los colores sin ellos. El amarillo, si bien sabe a mostaza, también es suave al tacto como las plumas de los pollitos. ¿No son acaso las plumas bellísimos objetos que invitan a dibujarlos con la suficiente delicadeza como para emular su textura? El rojo, dulce como la sandía o ácido como la fresa cuya piel se presta para divagar con la plumilla por una infinita cantidad de puntos. De la misma manera las hojas secas y la grama, el cabello de la madre y la lluvia. Pero ¿cómo ilustrar el azul del cielo cuando el sol calienta la cabeza? En fin, la representación de todas esas sensaciones me hizo recordar el cuadro de Magritte en que se plantea “Esto no es una pipa”. Esto no es una fresa, ni el arcoiris, ni el agua, son interpretaciones bidimensionales de esos conceptos que el invidente tendrá que aceptar de la misma forma en que los que podemos ver entendemos el azul al leer azul.
Pero las experiencias con este libro no terminaron al imprimirlo, por el contrario, este libro tiene vida propia. El haberlo hecho me hizo tener una sensibilidad especial al visitar la exhibición “Diálogos en la oscuridad”, en el Museo Papalote de México. En una inmensa habitación completamente oscura, pude vivir la experiencia de la invidencia y avanzar por una calle, un mercado, una selva e incluso un bote en el agua. Todo esto guiados por Marcos, un joven que perdió la vista a los 20 años de edad y que utiliza uno de los sentidos más importantes para sobrevivir a la invidencia: el sentido del humor.
No he mencionado a Cristina Urrutia, directora editorial de Ediciones Tecolote, quien creyó literalmente a ciegas en el proyecto, y que lo bautizó con una actividad única: la cena de los sentidos. Con los ojos vendados, los asistentes reciben una caja dividida en compartimientos, llena de los elementos que se describen en el libro, y lo intentan adivinar a través del gusto, tacto, olfato y oído. Nos trajimos la iniciativa al Banco del Libro en Caracas, y pudimos ver cómo se transforma la noción de las personas acerca del mundo que les rodea. En fin, El Libro negro de los colores verdaderamente se transformó para mí en una manera de romper barreras preestablecidas y en mi granito de arena para lograr un mundo mejor.
via Gretel




Inúmeras vezes traduzido e premiado, este álbum de pequeno formato, recentemente editado pela Bruaá, procura sensibilizar os seus leitores (não só infantis) para a importância do estímulo à criação artística, ao mesmo passo que vem desmitificar a birra, mostrando a relevância de reforços positivos e do encorajamento na criança para o fortalecimento da sua auto-confiança. N’O Ponto, Vera teima em deixar a sua folha em branco, afirmando não saber desenhar, até que, por incentivo da professora, a menina cessa com as suas renitências e aceita deixar no papel uma pequena marca: um único e simples ponto que se anunciará, na verdade, como o verdadeiro ponto de partida para o brilhante percurso artístico da pequena protagonista, cujos trabalhos assinados e emoldurados se revelarão autênticas obras de arte. Pautado por uma economia verbal, assim como pela contenção e leveza do traço, este livro extremamente original surpreenderá e inverterá as expectativas de qualquer leitor. Uma verdadeira lição sobre a legitimidade da liberdade do acto criador… uma pura definição de Arte, portanto!




Nasceu mais um álbum da Bruaá. Vimo-lo na Feira do Livro, no sábado passado. Por não editar em catadupa, e pelos critérios rigorosos por que se rege, faz-nos desejar. Nos tempos que correm é um privilégio voltarmos a desejar, a ansiar e termos de esperar. Faz-nos voltar à infância, quando não éramos constantemente bombardeados por coisas (apenas coisas) que hojem caem de todo o lado, como a música estridente em espaços públicos como elevadores ou a Praça Leya na Feira do Livro de Lisboa… De volta ao novo álbum da Bruaá: o segundo motivo de alegria é que quando pensamos que o nosso conhecimento nos permite prever o próximo livro, enganamo-nos. Não porque seja o oposto do que esperávamos, mas porque sempre diverge um pouco, sempre nos espanta. E o espanto é também raro nos dias que correm. Porque o espanto é bem diferente da surpresa, que é imediata e não produz mudança, apenas reacção. O espanto obriga ao silêncio.
Finalmente, a continuidade artística, que une todos os pontos bruaá numa economia textual minimalista e em traços contidos. Desta simbiose sempre resulta uma unidade narrativa e poética, da qual nada se desvia, nada nasce lateralmente nos livros. Não há uma profusão de elementos que indiciam avanços narrativos, ou destacam momentos mais relevantes. A contenção estética obriga à concentração, à disponibilidade, ao deleite.
O quarto livro, O Ponto, esclarece a argumentação apresentada e responde com arte aos devaneios contemporâneos. Simplesmente.

Eu espero… estranha interpelação… que nos chega dum pequeno álbum com o formato de envelope administrativo. À janela, um rosto de criança, simultaneamente destinatário e remetente, em busca do sentido da vida. Vasto projecto no qual o livro infanto-juvenil não se priva de colher imagens, símbolos, narrativas iniciáticas, parábolas às faces infinitas, entranhados em situações, linguagens concretas que nos conduzem a uma diversidade de leituras. Quando é conseguido, a criança não encontra respostas feitas, mas sim pontos de referência, novelos de sentido para tricotar as suas relações secretas com o percurso recatado da existência.Eu espero… Davide Cali e Serge Bloch desenrolam o fio vermelho das esperas da vida. Um fio vermelho esticado à medida da vontade de crescer, que se desenrola ao longo das páginas em detalhes comovedores tanto como a pontuação. Infância, maturidade, morte, renascimento são termos que ganham profundidade apesar de serem extraídos de representações minimalistas que se estendem no tempo e que se juntam à verdadeira banalidade das frases do quotidiano. Quantas emoções, risos, dores, esperanças destiladas numa trintena de desenhos com traços de pura sensibilidade e em menos de cem palavras…verdadeira arte e para a criança um passaporte único para a viagem que se segue.

Bernard Épin – L’humanité – 2005




Shel Silverstein foi provavelmente o autor americano para crianças mais popular do século XX.Foi um artista verdadeiramente singular e multifacetado. Shel Silverstein foi escritor, poeta, ilustrador, dramaturgo, letrista (compôs “A Boy Named Sue” para Johnny Cash) e cantor. No entanto, são os seus livros para livros para crianças que deliciaram milhões de leitores por todo o mundo, que o vão tornar internacionalmente conhecido como um dos autores para crianças mais populares e amados de todos os tempos, muitas vezes comparado a Edward Lear, Dr. Seuss e A.A. Milne.
Nascido em Chicago a 25 de Setembro de 1930, Sheldon Allan Silverstein começou desde cedo a escrever e a desenhar já que, como ele próprio disse: “ Preferia ter sido jogador de basebol ou ter sido um sucesso com as míúdas. Mas como não conseguia jogar nem dançar dediquei-me à escrita e ao desenho. Tive sorte em não ter ninguém por quem copiar ou que me impressionasse. Acabei por desenvolver um estilo próprio.”
Silverstein publicou as suas primeiras histórias no jornal militar Pacific and Stripes , enquanto servia o exército americano na Coreia, nos anos 50. O seu trabalho chamou a atenção da Playboy, onde colaborou durante seis anos, e ganhou notoriedade internacional com o desenho que representa um prisioneiro acorrentado à parede pelos pés e pelos punhos dizendo a outro acorrentado: “Pssst! Tenho um plano!”. Em 1961, estreou-se com o livro Uncle Shelby`s ABZ Book.
Shel Silverstein nunca pensou em escrever para crianças – o que não deixa de ser surpreendente para um artista cujas obras para crianças acabaram por ser traduzidas em mais de 30 línguas. Nos anos 60, o seu amigo Tomi Ungerer, também ele um escritor para crianças, cuja carreira estava a florescer, apresentou Silverstein à sua editora, a lendária Ursula Nordstrom da Harper Collins. Desta ligação acabou por resultar a publicação dos seus dois primeiros livros infantis “Lafcadio, the lion that shot back” em 1963 e “A árvore generosa” (The giving tree) em 1964 que o vem a consagrar. Este último teve inicialmente vendas bastante modestas, mas rapidamente a parábola sobre um menino e uma árvore tornou-se uma referência para leitores de todas as idades. Décadas depois da sua publicação, com mais de cinco milhões e meio de cópias vendidas, “A árvore generosa” tem um lugar cativo no top de vendas dos clássicos de sempre.
O livro “Where the Sidewalk Ends”, a primeira coleção de poemas de Shel Silverstein, publicado em 1974, tornou-se num clássico instantâneo. Mais duas colectâneas se seguiram: “A Light in the Attic” em 1981 e “Falling Up” em 1996. Ambos dominaram o top de vendas durante meses, com “A Light in the Attic” Shel bate todos os recordes prévios com a sua permanência de 182 semanas no primeiro lugar da lista do New York Times.
Em 1984, ganha um Grammy Award for Best Children’s Album com o livro “Where the Sidewalk Ends“
Embora as suas histórias façam parte dos catálogos infantis, Silverstein é um desses poucos autores que se pode afirmar serem, de facto, para todas as idades. Dono de um traço preciso, ele mostra no próprio desenho a sua visão do mundo: dizer muito com extremamente pouco.
Na parte final da sua vida, Silverstein concentra-se na escrita teatral, escrevendo peças como The Lady and the Tiger , Wild Life and The Devil e Billy Markham.
Silverstein também escreve com o seu amigo David Mamet o filme Things Change em 1988.
No entanto, é a sua poesia que continua a ser a sua mais valia. Os seus versos deram às crianças permissão para, momentaneamente, serem adultos e (também importante) deixaram os adultos experimentar a nunca simples perspectiva das crianças.
Até à sua morte em Maio de 1999, continuou a criar peças de teatro, canções, poemas, histórias, ilustrações e acima de tudo, como disse ele próprio “ a divertir-se”.


Este livro é o mais conhecido do escritor e ilustrador norte-americano Shel Silverstein. O clássico, escrito em 1964, comoveu gerações com a história de uma árvore e um menino. Com poucas palavras, Silverstein fala da relação entre o homem e a natureza, onde uma árvore oferece tudo a um menino, que a deixa de lado ao crescer ao mesmo tempo que se torna num homem egoísta. Mas para agradar ao menino que ama, a generosidade desta árvore não tem fim – ainda que isto signifique a sua própria destruição.Em primeiro plano, uma lição de consciência ecológica: o homem pequeno, mesquinho, frente à generosidade e à força da natureza. No entanto, a dinâmica que vemos entre o menino e a árvore fala também da passagem do tempo e dos valores que são reavaliados com ela. A árvore ensina, por meio do afecto, uma relação de troca sincera e desinteressada – essa que o homem parece desaprender com as exigências da vida adulta.

Duas fortes qualidades aliam-se neste livro. O facto de abordar questões fundamentais como o tempo, a morte, a vida, a relação amorosa e de amizade, tudo o que nos posiciona face aos outros e a nós próprios, assim como a aposta ao nível estético , na sobriedade narrativa como ilustrativa, com o traço simples e preciso de Silverstein.