‎”Esqueci-me como se chama” por Paula Pina

Estou com sono. Estou com muito sono mas não vou dormir. Abro de novo o portátil. Uma luzinha azul treme, indicando falta de bateria. Agarro num bloco e num lápis. Estou com sono mas não vou dormir. Vou escrever. Vou escrever sobre um homem. É alto, muito magro, excessivamente magro. Assustadoramente magro. Está inclinado sobre uma mesa. A mesa está torta. Embrulhada num pano, uma fatia de pão escuro, duro. É de noite e está frio, um frio russo, mas a lareira está apagada, húmida. O homem escreve depressa, quase sem respirar. As folhas amarrotadas cobrem-se com a sua letra inclinada. Os cadernos são grosseiros, desiguais, as folhas desprendem-se e algumas caem no chão. No pequeno quarto desnudado, destaca-se um armário, gavetas meio abertas, atulhadas de folhas atadas com cordel. Folhas de papel também nas cadeiras esqueléticas, e sobre a cama desfeita, no canto. Do outro lado, ao pé das três janelas, uma cadeira de baloiço. O homem vira-se de repente para a porta, escutando os passos pesados, autoritários, apressados, subindo as escadas. O rosto, agora iluminado, está brilhante, pequenas gotas de suor nas têmporas arruivadas, os olhos claros inundados por uma vermelhidão líquida. No meio da testa, a marca profunda do franzir dos loucos entre as sobrancelhas salientes. Insolências sobrantes, ironias íntimas, provocações disfarçadas, esculpiram-lhe marcas de risos antigos nas faces encovadas. O homem levanta-se e, em movimentos rápidos, precisos, antecipatórios, baixa-se junto à cama e puxa uma mala esburacada, cujos fechos estalam sob a pressão dos dedos longos. O barulho dos passos é cada vez mais intenso.(…)

Continuar a ler no blogue Cria Cria


Share this post