An everyday scene: a hurried adult trying to make a child obey his requests, on the other side, an imagination without schedules or hurries that seems to grow out of each impatient sentence said by the adult. Two worlds colliding and creating the child’s “I was thinking…” mantra, a stream of though born out of the constant curiosity about the world, the enchantment of things around us, from all the pieces of dust that float and shine in the sunshine to the most wild numbers one is capable of thinking: a billion, a zillion, a whillion, a gorillion, a hippopillion, a rhinocerillion, an elephantillion. A book that celebrates the freedom to daydream and that reminds us of the poet’s verses: “You may give them your love but not your thoughts/ For they have their own thoughts./ You may house their bodies but not their souls,/ For their souls dwell in the house of tomorrow,/ which you cannot visit, not even in your dreams.”




O nascimento de uma criança, ignorante sobre o mundo, é o mote do livro para a infância “Guarda como um segredo”, da escritora Sandol Stoddard e do designer gráfico Ivan Chermayeff, a editar esta semana pela Bruaá.
O livro foi publicado originalmente em 1961 e parte da ideia de que uma criança, quando nasce, desconhece o que a rodeia, com a autora norte-americana a elencar muitas das coisas que estão por descobrir e conhecer – o que é a felicidade e a tristeza, o que são estrelas, trovões e neve. O texto é de Sandol Stoddard Warburg, autora com mais de uma vintena de livros publicados, e a ilustração e trabalho gráfico é do britânico Ivan Chermayeff, cuja obra está agora a ser publicada pela primeira vez em Portugal. “Guarda como um segredo” é o segundo de três livros que a Bruaá edita com ilustrações de Chermayeff. O primeiro foi “Um nome para o cão”. Com Tom Geismar, Ivan Chermayeff fundou em 1957 uma das mais importantes agências de design dos Estados Unidos. Com o irmão, Peter Chermayeff, o autor concebeu o painel de azulejos, com animais marinhos, no exterior do Oceanário de Lisboa.

por Lusa, texto publicado por Paula Mourato


Quando alguém nasce inauguram-se sempre duas novas realidades: a de um bebé e a daqueles que lhe dão as boas-vindas e se vêem confrontados com o que dar, mostrar ou dizer a quem acaba de chegar a este mundo não sabendo nada ou quase nada. Como receber da melhor maneira este novo membro da família e apresentá-lo aos mistérios da vida? Por onde começamos com esta bela criatura adormecida? Por um brinquedo para ele ver, por algo perfumado para ele cheirar? Podemos dar-lhe uma maçã, uma folha ou mostrar um pedaço de neve. Mas será que ele vai entender? Tudo o que ele sabe é ainda muito pouco, embora já saiba que quer alguém a segurá-lo bem apertado. Talvez o melhor será partir em busca de tudo o que neste mundo queremos partilhar com ele e guardá-lo em canções, guardar tudo como um segredo que só a ele pode ser confiado, para que saiba que é algo de especial, algo de bom neste seu primeiro dia na Terra.


O próximo autor a juntar ao nosso catálogo dispensa apresentações: Ivan Chermayeff, um dos maiores nomes do design gráfico mundial que, em conjunto com Tom Geismar (http://www.cgstudionyc.com), concebeu algumas das imagens mais icónicas do séc. XX. Quem é que já não se cruzou com os logotipos da Mobil, da National Geographic ou da NBC? Em Portugal, deixou já a sua marca no Oceanário de Lisboa, projecto da autoria do seu irmão Peter, num enorme painel de azulejos repleto de animais marinhos no Pavilhão dos Oceanos. Para além do design, o prolífico trabalho de Ivan Chermayeff passa pela pintura e ilustração, tendo já ilustrado autores como Kurt Vonnegut, Ogden Nash e Sandol Warburg.
Com a Bruaá editará pela primeira vez um dos seus projectos mais pessoais de sempre intitulado “Um nome para o cão”, um diálogo humorístico que resulta de pedaços de conversas que ouviu entre o seu filho Sam, então com 3 anos, e um amigo.
Este é o primeiro de três livros que resultará desta parceria que muito nos honra, sendo, ao mesmo tempo, o segundo livro da nossa trilogia canina iniciada com “Arturo” e que terá o seu terceiro elemento com a reedição de um livro muito cãotita da lavra de um artista português.

 


Como é que pode um miúdo português ler uma história que está escrita em persa? Da mesma maneira que um miúdo persa lê uma história escrita em português. Vai ao final do livro e vê a tradução. É isso que acontece neste livro, que tem um toque de magia no final. Como o mais provável é os leitores não perceberem peva de persa, à medida que se lê a história parece que os caracteres esquisitos são uma simples tradução. Errado. As histórias são bastante diferentes e ao mesmo tempo bastante iguais. É por isso que há por aqui uns pós de perlim pim pim.
Ana Kotowicz

Desconhecida do comum dos leitores, a força da ilustração iraniana já não surpreende, pelo menos, quem vai regularmente à Feira do Livro Infantil de Bolonha. Mas a singularidade de O Jardim de Babai deve-se mais à sua riqueza interpretativa do que ao convite a um olhar exótico, patente na edição bilingue (português e persa) e na possibilidade de leitura em sentidos contrários. Tal como uma tecelagem que se faz e desfaz, pegando por um fio ou por outro, o que encontramos no âmago desta belíssimo livro é, acima de tudo, uma reflexão sobre a integridade do ser. No centro do jardim que é também um tapete – dois símbolos antiquíssimos da ordem e da proporção –, está sempre a mesma figura concêntrica de Babai (sinónimo infantil para “cordeirinho”), ela própria desenhada como um jardim e um tapete. Filha de mãe belga e pai iraniano, Mandana Sadat (Bruxelas, 1971) recorre à iconografia islâmica, onde se destaca a geometria simbólica do número quatro e os elementos sagrados da natureza rodeando o centro. “Depois de muito procurar, encontrei esta parcela de terra soalheira junto a uma nascente”, diz Babai. E assim começou a cultivar o seu jardim.
Carla Maia de Almeida publicado na edição 126 da revista LER e no blogue O Jardim Assombrado.

Há muito que a bruaá nos tem habituado a livros que se oferecem ao toque como peças de arte trabalhadas à mão. Desta vez, a proposta é a de um livro que permite a leitura em duas línguas tão diferentes quanto o sol e a lua: o Português e o Persa. Porém, aquilo que à partida é antevisto como uma história comum traduzida em duas línguas diferentes será, no final, muito mais do que isso. Continuar a ler

De elaborada concepção, “O Jardim de Babaï” é um álbum bilingue em português e persa (farsi) que explora não só elementos da cultura oriental (iraniana, em particular), como é o caso dos tapetes, propondo uma leitura particular destes objectos, como das duas línguas que compõem a publicação. Assim, são-nos propostas duas rotas de leitura: uma orientada pelo texto em português, começando na capa e seguindo até ao final de acordo com as convenções ocidentais; a segunda seguindo o processo de leitura da língua persa e começando do ponto que, para os leitores ocidentais, é a contracapa. Original jogo de leitura que recorre, do ponto de vista da ilustração, a um hábil jogo de decomposição e recorte dos motivos dos tapetes persas transformados em personagens de uma intriga simples mas particularmente bela e eficaz.

Ana Margarida Ramos | Casa da Leitura


O Jardim de Babaï é um livro “enganador” na sua aparente simplicidade de recursos. À primeira vista parece que nos deparamos com um relato construído sobre um conhecido modelo dos contos de tradição oral, acompanhado de belas ilustrações. Num primeiro encontro com o livro talvez a nossa atenção seja atraída pela presença de duas línguas, percursos de leitura em direcções contrárias, a técnica da ilustração e pouco mais. No entanto, são estes elementos construtivos e outros que, se olhados com maior atenção, nos darão conta de um livro deliberadamente ambíguo, aberto, propiciador de uma actividade intensa e inesgotável de produção de significados por parte do leitor.
— Marcela Carranza





Marco Somà, com as suas ilustrações para “A rainha das rãs não pode molhar os pés” foi um dos seleccionados para a “Mostra degli illustratori” da Feira de Bolonha 2013. Portugal fica representado pela ilustradora Mariana Rio que, no ano passado, ilustrou o livro “Quebra Cabeças”, com texto de Helena Carvalho e publicado pelas Edições Eterogémeas.

Consultar a lista completa.



Magias 
Há quem queira adquirir faculdades mentais utilizando o método faquírico. É um erro. Cada um deve ter o seu método. Quando eu quero fazer aparecer uma rã viva (uma rã morta é muito fácil), não me forço a isso. Aliás, ponho-me a pintar um quadro mentalmente. Formo as margens de um rio, escolhendo bem os meus verdes, depois espero pelo rio. Passado algum tempo, atiro uma varinha sobre a margem; se se molhar, posso ficar tranquilo, só tenho de aguardar um bocadinho que logo aparecem as rãs a saltar e a mergulhar. Se a varinha não se molhar, terei de renunciar ao meu esforço. Então, faço a noite, uma noite bem quente e, com uma lanterna, passeio pelo campo. É raro que tardem a coaxar. Isto não tem nada a ver para o caso. Mas tenho de o dizer, está à minha frente, está a acontecer: Vou ficar cego.

 
Henri Michaux
Tradução de Margarida Vale de Gato
in Antologia, Relógio D’Água, 1999
Ilustração de Marco Somà


Em “Esqueci-me como se chama” temos os dez mandamentos do disparate: uma história que nunca o chega a ser; uma conversa sobre o jardim zoológico em se confunde um leão com um tentilhão; uma louca corrida à volta de um lago entre um leão, uma girafa, uma avestruz, um veado, um alce, um cavalo selvagem e um cão; uma estranha motivação para enfiar colheres de óleo de peixe garganta abaixo; um ouriço armado em corajoso; um problema de linguagem à volta do nome de uma das muitas gueixas do galo de capoeira; uma espécie de ensaio sobre a forma mais sensata de levar um burro casmurro a entrar nas portas da cidade; o estranho desaparecimento de Karl Ivánovitch; um circo de nome Printinpram, que oferece um programa espectacular; uma viagem a custo zero, por entre muita discussão, ao Brasil (ou será Brasíluvo?). Continuar a ler


3 (2 figueirenses, 1 alfacinha) das 28 sugestões de Verão na secção de livros do suplemento Actual | Expresso. Texto de Sara Figueiredo Costa.


“Era um famoso bonecreiro que viajava numa carroça puxada por cavalos, levando o seu espectáculo de fantoches por toda a Argentina e outros países sul-americanos.” Podia ser o início de uma história, e é. Trata-se de um excerto da biografia de Javier Villafañe (Argentina, 1909-1996), um dos autores representados na mais recente maravilha da Bruáa, O tigre na rua. O título é inspirado no poema de Daniil Harms, incluído no livro, que tem ilustrações do francês Serge Bloch.
Não é por nada, mas eis a lista completa dos autores desta antologia: David Chericián, María Elena Walsh, Laura Elisabeth Richards, Michel Monnereau, Roger McGough, Marc Johns, Spike Milligan, Edward Lear, Javier Villafañe, Shel Silverstein, Eduardo Polo, Daniil Harms, Jacques Prévert, Richard Edwards, André Frédérique, Edgar Allan García, Ramón Gómez de la Serna, Jacques Roubaud, Roland Topor e um tal de Anónimo.
Um dos livros do ano. Ponto.

 
Rui Manuel Amaral


Preguiça, engenharia, papel e floresta são fulcrais e paradoxais na leitura do mais recente álbum da Bruaá, demonstrando a sua polissemia e destruindo relações causais que justificam algumas atrocidades ambientais.

O segundo livro da dupla Anouck Boisrobert e Louis Rigaud continua a explorar a arquitectura do pop-up ao serviço da narrativa.
Depois de erigirem a urbe, os autores denunciam ferozmente a destruição massiva da floresta à escala planetária. A preguiça-de-coleira é aqui a personagem principal, aquela que, a par de tantas outras espécies, se encontra já ameaçada pela devastação do seu ecossistema.
É a sua procura, entre as árvores, que guia o leitor ao longo das páginas. A cada dupla, a angústia cresce a par com o abate das árvores, a madeira no chão, os pássaros em voo, os papa-formigas, os ouriços, os macacos, os tigres, os homens, todos em fuga. E os buldózeres a aparecerem, arrancando as árvores pelas copas. Tudo vai desaparecendo, até restar apenas a árvore com a preguiça. Indiferente, incapaz, indefesa? Do fundo verde, só uma pequena sombra, do rio, apenas vestígios e por todo o solo um enorme vazio plano e branco, pontilhado de pequenos troncos castanhos. Até ao nada.
Ao contrário do que acontece em Popville, em que os pop-ups se sucedem num movimento aditivo de casas, fábricas e estruturas, em Na Floresta da Preguiça a profusão de árvores e animais vai diminuindo até à dupla onde parece já não haver lugar para nenhum pop-up. Já não resta um pingo de verde. Mas um homem com um saco e as suas sementes trabalha discretamente no fundo da página da direita.
Ao puxarmos o papel descobrimos que os recortes brancos se erigem em pequenas plantas que germinam. E lá está, de novo, a preguiça. Ao virar a página, para a dupla final, regressa com mais cor, mais altura e mais diversidade a floresta destruída, que cresce do fundo para o topo, e onde todos regressam.
Para que a memória não se apague, persiste o esqueleto de uma retro-escavadora, por onde trepam novas plantas em direcção ao céu.
A técnica do pop-up serve o sentido da criação e da devastação, do crescimento em altura e da ocupação do espaço, e do deitar por terra, arrasando. A leitura faz-se-se não apenas da esquerda para a direita, mas também rodando o livro e visualizando-o de cima para baixo. Tanto assim é que a ilustração é a mesma dos dois lados de cada linha de papel. Só o texto dá uma orientação mais tradicional ao livro e, não sendo necessário para a sua leitura, enfatiza com a sua poeticidade e o desafio ao leitor: (…)”e a preguiça – estás a vê-la?”, a mensagem que pretende passar.
A protecção da floresta e das espécies ameaçadas e a importância de todos os gestos individuais na luta contra esta catástrofe estão bem patentes no livro, logo a começar pelo texto da contracapa.
Porém, a força da obra reside na escolha e disposição de todos os elementos que a contém, em cada passo narrativo, e na surpresa da reconstrução.

Andreia Brites | O Bicho dos Livros