«O Arenque Fumado», descortine o que isto é à primeira

Um arenque fumado está em cima da minha mesa, ao lado do teclado. Está fechado numa caixinha de cartão e não cheira mal. Começo a desdobrar a embalagem, com muito cuidado porque parece frágil, e a total surpresa: tenho na mão um tríptico colorido cheio de letrinhas e ilustrações tão apetitosas que nem sei por onde começar. «O Arenque Fumado», de Charles Cros, chega-nos através da Editora Bruaá. As ilustrações são de André de Loba.
O texto começa assim:

Era um grande muro branco – nu, nu, nu,
Contra o muro, uma escada – alta, alta, alta,
E, no chão, um arenque fumado – seco, seco, seco.

Ele chega, segurando nas mãos – sujas, sujas, sujas,
Um martelo pesado, um grande prego – bicudo, bicudo, bicudo,
Um novelo de fio – grosso, grosso, grosso.

Sinto-me perdida. Nem sei que pensar. Vejo-me obrigada a rodopiar a cartolina para continuar a ler.

Sobe então à escada – alta, alta, alta,
E espeta o prego bicudo – toque, toque, toque,
No alto do muro branco – nu, nu, nu.

Estou cada vez mais confusa.
Mais à frente dou por mim, já toda torta, a tentar decidir-me pelo texto ou pelas ilustrações. Não está fácil concentrar-me. Mas estou deliciada com este exercício.

No final percebo. No final percebo tudo. Malandrice da boa inventada para divertir. E agora? Acabou? Era o que faltava. Rotação de 180º, estou no verso da folha, e percebo que esta maravilha vem com instruções. Pode ser lido à toa, também é divertido assim, mas seguindo os conselhos o resultado é ainda mais engraçado. É que esta estranha lengalenga pode ser dita com arte…

O Arenque Fumado deve ser gritado com voz forte, não mexendo o corpo, numa imobilidade absoluta. Ao dizer o título, a ideia é que o público (Público? Hã? Isto é para ser teatralizado? Entendido!) tenha a sensação de uma linha negra a realçar-se sobre um fundo branco (tchii, o quê? Bem, é tentar. É puxar pela imaginação. Sim, sim, isto pede um rasgo de criatividade).

E prossegue com…
Era um grande muro branco – nu, nu,nu
Aqui, o público deve sentir o muro direito, rígido, e depois quebrar a monotonia deste momento alongando o som no terceiro «nu», o que aumentará o muro, dando-lhe quase a dimensão aos que o ouvem.

E por aí fora, num exercício que obriga o «actor» a dobrar-se, a suster o ar, a fazer o gesto de baloiçar, a mandar fífias…

«O Arenque Fumado», afinal, é uma peça de teatro com todas as indicações para ser levada a cena com direito a reposição. O pano até pode fechar mas voltará a abrir incessantemente ao som dos aplausos e dos pedidos de encore. Ficaram só a faltar as três pancadas de Molière para avisar a plateia que o espectáculo já tinha começado. É que nem eu me apercebi disso.

Brilhante, em toda a acepção da palavra.

Sandra Gonçalves | Diário Digital

Share this post