“O livro negro das cores” por Pedro Moura

A tarefa da crítica depara-se, de quando em vez, com os seus próprios limites, no sentido em que o discurso que cria, e que deseja, se opera no interior de um saber levado até às consequências da sua própria limitação, pois só aí é que nascem as questões, mesmo que jamais sejam respondidas, em vez de uma aproximação segura, incontroversa, de apresentação informativa – deixando de ser crítica, portanto. Mas por vezes ela depara-se com um território qualquer que ultrapassa esses limites, e passa a estender-se uma outra área, de ignorância, de escolhos conceptuais, de não-compreensão, até mesmo de impossibilidade de aproximação, por menor que esta pudesse ser. [nota pessoal: já tinha este livro, numa sua versão espanhola e francesa, há dois anos, mas não me era possível escrever sobre ele; a sua tradução, mas também o cruzamento com uma investigadora, levou a este texto, assinado a dois.]

O livro negro das cores é um desses objectos cuja leitura lança a tarefa crítica directamente aos escolhos. São tamanhos os riscos que se tomam ao abordar um livro destes. Para mais, por não sermos (e não o desejarmos ser) os seus leitores ideais. Ler este livro é lê-lo com medo, desconhecimento e apenas uma tentativa votada ao insucesso. É à luz desse perigo que o texto que se segue deve ser lido.
Muitos artistas que trabalham o desenho, desde aqueles que se expressam através do desenho quotidiano dos diários gráficos aos que constituem inúmeras séries como Robert Longo, expressam muitas vezes a entrega dos cinco sentidos em toda a criação do desenho. Querem eles com isto dizer, para além de um certa poeticidade da língua, de uma retórica assaz constante, que o acto de criação apenas é possível com uma total concentração, e que tal concentração apenas é possível de atingir se real. Uma forma de entender essa entrega é a capacidade que os autores têm de, a cada vez que revisitam com o olhar o desenho feito, possam recuperar todo o ambiente e sensações do momento da sua criação, como se todo o corpo passasse a tornar-se parte intrínseca, através de ligações subtis, da marca deixada na superfície (a que nós, meros espectadores, apenas temos acesso).
Ao deparamo-nos com um livro para cegos, e mormente, um livro ilustrado para cegos, por mais paradoxal que isso nos pareça, essa imagem é destruída, e somos confrontados com uma realidade mais prosaica, por um lado – há mesmo a ausência de um dos sentidos –, e, por outro, mais mais verdadeira – exploram-se os sentidos de um modo mais holístico, usualmente preterido. No caso presente, trata-se de assumir a necessidade de ler pelo toque.
Esta dimensão do toque traz à tona uma complexa rede de sensações e percepções que baralha novamente a relação entre intimidade e distância do acto de leitura, de fruição de uma ilustração. Convenhamos, sem titubeações, que não leremos jamais este livro como os cegos (assim o esperamos, sem com isso desejar diminuir o valor humano dos cegos). Por não sabermos ler Braille, por não termos a sensibilidade e aprendizagem suficientes para diferenciar e interpretar e ler as inscrições em volume (quer a escrita quer as imagens), por não podermos compreender o jogo que o livro promete, implica, e cumpre. Temos sempre o atalho mais fácil: vemos.
Continuar a leitura no blogue de Pedro Moura: Ler BD
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