“O livro, negro” por Pedro Vieira

está posto em cima do balcão, vê-se logo quando se entra, anda a fazer as vezes de cicerone, essa é que é a verdade, e eis que aí vem mais um curioso, de mãos gulosas e estendidas, e vai de pegar-lhe e esboçar uma surpresa e eu, que não sei estar calado e o que isso me tem trazido de amargos de boca pela vida fora foda-se, digo é uma belíssima edição e ele olha para mim por cima dos óculos e por baixo do intelecto e diz está a brincar comigo? e eu que não, que reparasse nas ilustrações e nos textos que as acompanham e ele olha, tem aqui coisas escritas, pensei que fosse um livro com as páginas todas pretas, como aquele que havia todo branco mas ao contrário, só que este tem conteúdo, caro senhor, e uma classe que não se descreve por palavras, é preciso pegar-lhe, senti-lo, e refrear o disparate. esta gente é como aqueles artistas coevos que vão à televisão, gosto muito de os ver trabalhar.

Irmão Lúcia

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