Reconstruir depois de ler

Preguiça, engenharia, papel e floresta são fulcrais e paradoxais na leitura do mais recente álbum da Bruaá, demonstrando a sua polissemia e destruindo relações causais que justificam algumas atrocidades ambientais.

O segundo livro da dupla Anouck Boisrobert e Louis Rigaud continua a explorar a arquitectura do pop-up ao serviço da narrativa.
Depois de erigirem a urbe, os autores denunciam ferozmente a destruição massiva da floresta à escala planetária. A preguiça-de-coleira é aqui a personagem principal, aquela que, a par de tantas outras espécies, se encontra já ameaçada pela devastação do seu ecossistema.
É a sua procura, entre as árvores, que guia o leitor ao longo das páginas. A cada dupla, a angústia cresce a par com o abate das árvores, a madeira no chão, os pássaros em voo, os papa-formigas, os ouriços, os macacos, os tigres, os homens, todos em fuga. E os buldózeres a aparecerem, arrancando as árvores pelas copas. Tudo vai desaparecendo, até restar apenas a árvore com a preguiça. Indiferente, incapaz, indefesa? Do fundo verde, só uma pequena sombra, do rio, apenas vestígios e por todo o solo um enorme vazio plano e branco, pontilhado de pequenos troncos castanhos. Até ao nada.
Ao contrário do que acontece em Popville, em que os pop-ups se sucedem num movimento aditivo de casas, fábricas e estruturas, em Na Floresta da Preguiça a profusão de árvores e animais vai diminuindo até à dupla onde parece já não haver lugar para nenhum pop-up. Já não resta um pingo de verde. Mas um homem com um saco e as suas sementes trabalha discretamente no fundo da página da direita.
Ao puxarmos o papel descobrimos que os recortes brancos se erigem em pequenas plantas que germinam. E lá está, de novo, a preguiça. Ao virar a página, para a dupla final, regressa com mais cor, mais altura e mais diversidade a floresta destruída, que cresce do fundo para o topo, e onde todos regressam.
Para que a memória não se apague, persiste o esqueleto de uma retro-escavadora, por onde trepam novas plantas em direcção ao céu.
A técnica do pop-up serve o sentido da criação e da devastação, do crescimento em altura e da ocupação do espaço, e do deitar por terra, arrasando. A leitura faz-se-se não apenas da esquerda para a direita, mas também rodando o livro e visualizando-o de cima para baixo. Tanto assim é que a ilustração é a mesma dos dois lados de cada linha de papel. Só o texto dá uma orientação mais tradicional ao livro e, não sendo necessário para a sua leitura, enfatiza com a sua poeticidade e o desafio ao leitor: (…)”e a preguiça – estás a vê-la?”, a mensagem que pretende passar.
A protecção da floresta e das espécies ameaçadas e a importância de todos os gestos individuais na luta contra esta catástrofe estão bem patentes no livro, logo a começar pelo texto da contracapa.
Porém, a força da obra reside na escolha e disposição de todos os elementos que a contém, em cada passo narrativo, e na surpresa da reconstrução.

Andreia Brites | O Bicho dos Livros

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