Texto de Carina Rodrigues para a Casa da Leitura

Passado meio século desde a sua edição original, em 1956, com que o seu autor redefiniu o estatuto da imagem no álbum narrativo para a infância, Lágrimas de Crocodilo chega, finalmente, aos escaparates das livrarias portuguesas, sob a agradecida chancela da Bruaá. Numa proposta estética claramente inovadora, André François, que foi sendo rotulado como um dos principais mestres da ilustração do século XX, leva-nos a conhecer, de uma forma humorística e até inusitada, o significado da expressão que dá título ao livro, numa obra indiscutivelmente original, cujo sentido plástico não se cinge à ilustração mas alcança igualmente a composição da página, estendendo-se ao livro-objecto.
Neste volume, a leitura e o jogo encetam-se mesmo antes da sua abertura, precisamente numa caixa-envelope de formato oblongo, onde é transportado o livro – ou o crocodilo que o encabeça, e a que a capa e a contracapa se referem desde logo. A criatividade do artista avulta justamente no próprio arranjo gráfico da obra, na forma como pondera a sua materialidade e na atenção especial que dá ao conjunto das suas componentes formais (e paratextuais). A ilustração, pautada por uma economia cromática, realizada a traço negro e, única e irregularmente, preenchida com verde (sobretudo a cargo do réptil) e laranja, revela-se particularmente sugestiva, chegando, não raras vezes, a preencher as lacunas ou os «espaços em branco» evidenciados pelo texto. Trata-se, pois, como no-lo indica o epitexto editorial, de uma obra histórica, revolucionária, hilariante, e… obrigatória!
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